Em 20.04.09 - Artigos, por Mr.Pop
Como vocês bem devem saber, existem milhões de coisas que se pode fazer para dar um saborzinho a mais pro seu cenário de campanha. O básico todo mundo conhece: criar um mapa bem pensado, detalhar religiões, povos, culturas, política, ordens mágicas e tal. Há aqueles mais dedicados que vão além, pensam [...]
Como vocês bem devem saber, existem milhões de coisas que se pode fazer para dar um saborzinho a mais pro seu cenário de campanha. O básico todo mundo conhece: criar um mapa bem pensado, detalhar religiões, povos, culturas, política, ordens mágicas e tal. Há aqueles mais dedicados que vão além, pensam em comércio, economia, idiomas diferentes para cada região (não só para cada espécie), milhares de guildas e todas essas coisas. Isso tudo é bem divertido (para alguns, como eu), mas, sejamos sinceros, poucas vezes isso afeta de verdade os jogadores.
Em quantas aventuras de fato fez diferença se o Reino de Nindenfallen tem um sistema de castas? Ou se a sociedade dos gnomos é a única República do mundo? Os jogadores podem até se interessar, mas são aspectos do cotidiano que vão afetá-los de verdade, porque é o que seus personagens vivenciarão no dia a dia. Rivalidades culturais (imagine o que seu player elfo vai passar quando viajar pra um reino onde os elfos são vistos de verdade como hedonistas pederastas), bardos famosos que mobilizam multidões, roupas peculiares e, o motivo por trás de todo este artigo, comida e bebida.
z9mm20sgzo9qz_94804_4325image08apr051548Tavernas! Símbolo máximo do Cotidiano de um PJ!
Tudo começou uns oito anos atrás, na minha primeira campanha de gente grande. Os PJs foram pra uma taverna e um deles pediu, “me vê o que você tem da mais forte”. Na hora, a palavra “hidromel” me fugiu à cabeça e eu disse, rapidamente, “Bem, temos Extrato de Hidra”. A bebida (e seus efeitos) tornou-se tão icônica que virou meio que a bebida padrão de nossas aventuras, mesmo que não seja eu o mestre. Tornou-se parte do que torna o cenário interessante, algo que os jogadores procuram quando param para tomar umas na taverna.
É, claro, uma questão de discrição. Seus players vão pra taverna do Javali Turrão (nomes são importantes!) pela primeira vez, e a garçonete oferece um Pescado à Fada. “À Fada?” vão pensar os jogadores, imaginando o que deve ser um pedaço de peixe com alguma coisa de fada, e vão pedir um, só pra satisfazer a curiosidade. E então, vem o prato. Descreva o prato, torne-o atraente. “Ela traz uma bandeja de madeira, sobre ele há um peixe comum. A diferença é que, sobre ele, um líquido levemente brilhante parece estar dançando. O molho se esfrega no peixe, sem parar, como se estivesse acariciando a carne. Quando ela coloca sobre a mesa, o cheiro entra em seus narizes a automaticamente vocês ficam inebriados e com água na boca. É o melhor cheiro que já sentiram em uma comida.”
Cara, na boa, até eu quero comer isso. Os jogadores vão então experimentar a comida, e é aí que vem a parte mais legal: os efeitos.
O player coloca a carne na boca, você começa: “Sua língua adormece. Você sente um sabor tão bom que não consegue descrever, não porque não saiba o que está sentindo, mas porque ainda não inventaram as palavras certas para dizê-lo. O sabor domina sua boca, domina sua mente. A cada mordida, o mundo parece ser mais irrelevante se comparado com o que está comendo. E quando você engole… jogue um teste de Fortitude.”
O quê? Como assim “jogue Fortitude?” É, meu amigo, o que vai tornar sua comida de mentirinha memorável de verdade vai ser o que ela vai causar nos jogadores. Ela pode ser um entorpecente, pode ser um alucinógeno, pode dar poderes mágicos temporários, aumentar a percepção, e assim por diante. É isso que vai fazer seus jogadores se lembrarem do prato, e, quando entrarem na próxima taverna, perguntarem pra gorda do balcão, “Ei, tem aquele… como é o nome mesmo? Pescado à Fada?”
Os efeitos podem ser inúmeros, desde práticos até cômicos. O importante é que sejam interessantes, que façam aquele pequeno e irrelevante pedaço da aventura chamado “parar para comer, porque personagem também é ser humano” se tornar uma parte importante para aclimatação e, especialmente, diversão dos players e, claro, dos mestres. Com o passar do tempo, seu prato ou bebida pode se tornar tão interessante que te dará a oportunidade de contar sua história e sistema de produção, dando aos jogadores mais pinceladas sobre seu cenário, e até mesmo narrar aventuras inteiras em torno dela.
Exemplo: Extrato de Hidra
Há milhares de anos, o extrato de hidra é uma das bebidas mais populares do mundo. Comum em quase todas as tavernas, em especial nas frequentadas por anões e humanos, sua coloração esverdeada, sabor amargo-adocicado e teor alcoólico elevadíssimo fez dela ingrediente indispensável para qualquer boa noitada.
HISTÓRIA
A história da bebida já está perdida nos anais da história. Há diversas lendas acerca de sua fabricação/descoberta, sendo a mais comum a história do Velho Ex-Mago.
Diz esta lenda que, durante uma expedição em túneis nas montanhas, um grupo de aventureiros enfrentou uma hidra, tendo degolado diversas de suas cabeças antes de finalmente conseguir derrotá-la. Prosseguiram então com sua expedição, o que mostrou-se um erro. Se perderam nas cavernas, sem comida ou água, e ainda por cima não encontraram tesouro algum.
Dias se passaram, o grupo sedento encontrou um local com algumas poças de um líquido de tonalidades verdes, e beberam com avidez. Acordaram dois dias depois, já na cidade, sem se lembrarem de como chegaram lá e de porque todos os saudavam e sabiam seus nomes.
Do grupo, só o Mago entendeu o que se passou. A bebida que eles haviam encontrado na caverna não era água e nem veneno, mas sim uma bebida alcoólica fortíssima, que explica a perda de memória. Enxergando a oportunidade, voltou à caverna para procurar a bebida, e a descobriu no exato ponto onde eles haviam matado a hidra no começo da aventura.
O líquido, já escasso, havia sido resultado do sangue das cabeças de hidra decepadas, fermentado pelos fungos da caverna. Imediatamente após a descoberta, o velho mago desistiu da carreira de aventureiro e passou a produzir a bebida, o que no fim das contas se provou muito mais lucrativo.
PRODUÇÃO
O extrato é produzido a partir do sangue das cabeças de hidra decepadas. Para reproduzir as condições de fermentação, o sangue é depositado em tonéis de pedra cheios de Verdum extratificatus, um fungo comum em cavernas úmidas, e então selado até que se complete a fermentação.
verdunO Verdum em estado natural
Já há tempos desde que o extrato era produzido com hidras selvagens. Hoje em dia a pecuária de hidras é uma atividade séria e muito lucrativa, embora também seja considerada uma das atividades mais perigosas do mundo.
TIPOS
Você já deve ter percebido que, nas garrafas de extrato de hidra que se vê por aí, há números do tipo “12.8″, “15.25″ ou, se você der sorte (e for muito rico), “9.50″. Esta classificação denota duas das características mais importantes do extrato: o sabor/cor e o teor o tempo de fermentação.
O primeiro número, que representa o sabor, varia de 9 a 24 e representa a quantidade de cabeças que tinha a hidra quando elas foram cortadas para a produção. Uma hidra “virgem” (termo usado pelos pecuaristas de hidra para designar uma hidra de nove cabeças, ou seja, que nunca teve nenhuma cabeça cortada) produz a menor quantidade de sangue, porém também a de melhor qualidade. O extrato de uma hidra de nove cabeças possui coloração verde brilhante, quase fluorescente, e o sabor mais acentuado. Como bem se sabe, após cortar-se a cabeça de uma hidra, duas nascem em seu lugar, multiplicando-se assim a quantidade de cabeças e diluindo-se a potência de seu sangue. Uma hidra de 24 cabeças produz um extrato de sabor leve e coloração verde-clara, tendendo ao azul, de pior qualidade. A partir de 25 cabeças, o sabor fica tão diluído que não é mais lucrativo, sendo então as hidras com tantas cabeças sacrificadas ou usadas apenas para reprodução.
O tempo de fermentação varia de 1 a 50 anos. Com um ano de fermentação, o líquido torna-se uma bebida opaca e de teor alcoólico de 61%. Sim, este é o mínimo. Com o passar dos anos, a bebida torna-se mais transparente e mais forte, sendo 50 anos o tempo máximo. Com este limite, a bebida final terá teor alcoólico de 93% e o verde será transparente e brilhante. Recomenda-se que somente os extratos de hidras com 9 e 10 cabeças fiquem tanto tempo fermentadas, pois são os únicos com sabor forte o bastante para suprimir o gosto de álcool. Alguns excêntricos tomam extratos de hidra com 51 anos de fermentação como uma forma de suicídio de luxo.
Uma vez eu tomei extrato 9.50. Quando acordei, semanas depois, cheguei à conclusão de que meu sabor preferido ainda é o 12.34.
EFEITOS
Agora vem a parte mais relevante.
Quando se bebe UMA dose de extrato de hidra (tipo uma dose de tequila), o personagem faz um teste de Fortitude, dificuldade 15 (a dificuldade aumenta em 5 pontos a cada nova dose)
Caso passe:
Parabéns, você está inteiro para a próxima dose.
Caso falhe:
• Penalidade temporária de -6 em Destreza;
• Penalidade temporária de -5 em Sabedoria;
• O personagem fica automaticamente indefeso;
• Penalidade temporária de -3 em jogadas de ataque (além da penalidade de destreza);
• Testes de Acrobacia, Furtividade, Cavalgar, Esconder-se, Procurar, Observar, Ouvir, Diplomacia, Blefar, Usar Cordar, Usar Instrumento Mágico, Ofícios, Prestidigitação, Escalar e quaisquer outros que o mestre achar adequado, falham automaticamente.
• Caso o personagem tome mais de 3 pontos de dano, ele cai no chão e não consegue mais se levantar.
Caso tire uma falha crítica:
Jogue 1d8 para saber quantos dias seu personagem ficará desacordado, e 1d10 para saber quantos pontos de subdual damage vão causar a ressaca.
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Este artigo foi idealizado e escrito por Fábio Ciccone, ilustrador, quadrinista e parceiro do POP DICE!
Arquivado em:
D&D |
Medieval
13 Comentários
Abriu meu apetite! :)
Lembre-se do queijo de leite de Owlbear (ou Ursoruja hahahaha)!
Nitro postou o seguinte: Personagem Pronto para Dungeons and Dragons Quarta Edição – Wakkan Whitebull – Xamã de 1º Nível + 3 Personagens Prontos de 1ª Nível! [NitroDungeon - D&D 4e]
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Gemada de leite de minovaca com ovos de cocatrix. Esta anima ate aquele lich de 379 anos
Shingo Watanabe postou o seguinte: Campanha em episódios – ou como os desenhos dos anos 80 podem influenciar um RPG
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Desde que experimentei cerveja azul e cobra azul em uma campanha, sempre ando em busca dessas iguarias pelas tavernas.. rs :)
Maíra Termero postou o seguinte: 1001 usuários, 1001 motivos
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Parabéns ao Fábio, o artigo está muito bacana.
Antigamente, quando jogava o AD&D costumava adicionar vários elementos em tavernas, variava em cardápios, bebidas, bardos, clientes, atendentendes e até mesmo guardas, procurando trazer elementos diferentes no cotidiano dos personagens,já que viver só dungeon não rola!
Abrçs e Bons Jogos.
d.darkangellus postou o seguinte: A importância do cenário nos combates
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Cara adorei a materia
sou usario novo e gostaria de fazer uma conta tem jeito
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Conta?
Como assim conta?
Quer contribuir com alguma matéria? É isso?
Se for, basta usar nossa página de contato (http://www.popdice.com.br/contato/) para nos contactar e enviar sua matéria.
Estando num bom nível e sendo interessante, nós publicamos!
Abraços
Antonio Sá Neto postou o seguinte: Mais sabor para seu cenário de campanha
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Demais!
Me lembrou da minha taverna da Hidra, acho que vou apressar as tavernas exóticas! muito bom mes mo Fabio.
Rsemente postou o seguinte: Novo tipo de Talento: Defeitos
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EU crio estes PLOTS e eles influenciam diretamente a minha campanha.
Afinal, embebedar um personagem, por culpa dele, é sempre uma boa dica para frear alguns egos…
Abraços,
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Muito legal!! Adorei, e nossa que coisa forte!
Só faltou os preços!
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Boa matéria
Seria intereçante saber os preços geralmente praticados dessa bebida.
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Eu já criei muitas coisas do gênero, as que os jogadores mais gostaram foram:
O Destilado vermelho: Produzido com mel, certas flores vermelhas que nascem em encostas rochosas e umas frutas mt ácidas que só nascem em terrenos áridos, extremamente cara, mas que além de ser extremamente doce e saborosa, esquenta o corpo de dentro pra fora (as flores sozinhas já são antidoto pra hipotermia) e revitaliza (cura 3 pontos de vida), efeitos colaterais – 5 temporário em sabedoria.
Elixir de casmio: Encontrado em quase todas as cidades costeiras, é feito de algas, tem sabor agridoce e textura levemente gosmenta, algumas pessoas acham nogento, mas marinheiros e outros trabalhadores a consideram exencial, pois minimiza os efeitos de um dia de trabalho duro (+ 5 de bonus to teste de fortitude pra esforço continuo), E o sabor é muito bom, se ignorar a textura. Sem efeitos colaterais, além dos obvios dos 65% de alcool.
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Nas primeiras aventuras do meu antigo grupo, tinhamos uma bebida muito forte conhecida como Grunsh. Meu anão sempre que ia a uma taverna pedia por esse bebida.
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Agora só falta inventar a prestige class Cozinheiro.
Adivinhem só qual é a classe daquele escravo do Antipaladino Indelair do Coração Negro? Hum?
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